Missão Garatéa, a ciência espacial como inspiração.

Nesse artigo conto um pouco de como a missão Garatéa foi idealizada, e quais suas principais características.

-Lucas Fonseca, Diretor da Missão Garatéa

 

A Rosetta

 Quantas pessoas já não sonharam em trabalhar com espaço? Eu sonhei e essa vontade me proporcionou participar do primeiro pouso de uma sonda na história da humanidade em um cometa. Sou Lucas Fonseca, engenheiro espacial e único brasileiro a trabalhar na missão europeia “Rosetta”. Ter a chance de viver um projeto espacial inédito me criou oportunidades únicas na vida. Aproveitando a exposição gerada, retornei para o Brasil na tentativa de plantar uma semente na exploração espacial nacional. Esse esforço veio através de duas atividades principais: a fundação da minha empresa atuante no ramo aeroespacial, a Airvantis; e a coordenação de um grupo de pesquisa dentro da Universidade de São Paulo, chamado Zenith Aerospace. Ambas as iniciativas tinham intuito de disseminar a mesma tecnologia: os Cubesats, pequenos satélites acadêmicos que possuem usos tanto comerciais, quanto para fins educacionais. Trabalhando em ambas as frentes complementavam um esforço maior de fomentar o desenvolvimento da indústria nacional.

A Garatéa

Com o avançar das atividades dentro da Universidade de São Paulo, percebemos que poderíamos executar ciência de excelência com baixo-custo através de atividades com balões científicos de alta altitude. Os balões vieram como forma de exercitar ciência e capacitação tecnológica, antecipando o desenvolvimento dos pequenos satélites sem um gasto expressivo. A iniciativa se tornou a Garatéa, em tupi-guarani “Busca Vidas”, nome escolhido por representar nosso principal interesse científico, o entendimento da Astrobiologia. A atividade, mesmo que com caráter científico, possuía um grande apelo de inspiração educacional, culminando em diversas atividades posteriores baseadas nessa plataforma utilizando balões. Com o desenvolver das atividades, objetivamos realizar voos mais altos, e através de uma interação com a NASA, recebemos como referência uma lista com 25 missões de voos de Cubesats para a lua e um convite para nos unirmos nessa nova tendência de empreitada da humanidade. Já fazíamos os experimentos em Astrobiologia, por que não propor uma missão que levasse para a lua alguns micro-organismos que testassem nosso conhecimento sobre a vida?

A Astrobiologia

Astrobiologia é o estudo da origem, evolução, distribuição e futuro da vida no universo. Operacionalmente, a Astrobiologia utiliza-se das diversas áreas do conhecimento (Física, Química, Biologia, Geologia, Astronomia e derivações destas áreas) integradas a um programa que combina o desenvolvimento tecnológico, a observação remota (missões espaciais), construção de modelos e o amplo envolvimento dos educadores e do público; aborda três questões básicas que, ao longo de gerações, foram feitas de diversas maneiras: Como a vida começou e evoluiu? Existe vida em outros lugares do Universo? Qual é o futuro da vida na Terra e/ou em outro lugar no Universo? Como executor da temática, estabelecemos uma duradoura parceria com o grupo de astrobiologia brasileiro, entidade iniciada na USP e referência no mundo.

A Lua

O que começou como um sonho distante em 2014, foi ganhando forma de projeto e culminou em uma aplicação para um projeto compartilhado oferecido por europeus para um voo lunar de missões distintas utilizando cubesats. Em novembro de 2016 veio a confirmação, éramos uma das cinco equipes escolhidas para participar de um voo para a Lua em 2021. Disso originou a Garatéa-L, sendo a primeira missão lunar brasileira. Temos ainda um longo trabalho pela frente de desenvolvimento tecnológico, científico e de levantamento de recursos para participação; mas temos o mais importante, a garantia que temos o espaço reservado para participar dessa empreitada da humanidade: Sim, o Brasil vai à Lua.

Nossos 3 pilares e nosso Motto

 Com a oportunidade de participação no voo lunar, a missão Garatéa cresceu de tamanho e de responsabilidade. Como maneira de potencializar o impacto de um projeto tão fantástico, escolhemos seguir 3 pilares que guiam nossos esforços: 1- Ciência de Excelência, 2- Desenvolvimento da Indústria Nacional, 3- Inspiração Educacional.  Para cada um desses pilares temos desenvolvidos atividades baseadas em uma forma simples e prática de execução; Inspirar, Educar e Construir; a tríade que representa nosso Motto. Através dos 3 passos, pretendemos fortalecer o entendimento da importância dos assuntos relacionados com espaço através da execução de pequenos projetos fantásticos, que em caráter complementar, garantam a plenitude objetivada no âmbito dos 3 pilares.

A vocação para inspirar a educação

 Dentre os 3 pilares que suportam a Garatéa, a inspiração educacional provavelmente é o maior legado que poderemos deixar para a sociedade. Baseado na importância do tema, temos executado atividades com universidades e escolas, além de diversos eventos de divulgação pelo Brasil. Como carro-chefe, desenvolvemos a Garatéa-E, projeto capitaneado pelo grupo Zenith em um trabalho de balões com escolas do Brasil todo. E como reconhecimento de todo trabalho realizado, fomos convidados por um órgão do governo americano para participar de uma nova grande empreitada: Colocar um experimento educacional a bordo da Estação Espacial Internacional (ISS). Essa é a primeira vez que essa chance é oferecida para uma iniciativa fora do EUA, e um retorno triunfante para a estação após 11 anos do voo do Astronauta Marcos Pontes. Mas para participar, temos que cumprir alguns requisitos, tais como desenvolver conteúdo educacional permanente, e garantir envolvimento de expressivos números de alunos. Temos a meta ousada de termos 1 milhão de alunos impactados pela iniciativa nos próximos 2 anos. Estamos confiantes que teremos sinal verde para continuarmos com o projeto da ISS, esperamos divulgar o resultado positivo da participação em breve.

 

“Inspirar, Educar e Construir” – Lucas Fonseca, Diretor da Missão Garatéa

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